3. A dama de branco

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— Você não deveria estar aqui.

Aquela voz. Parecia uma daquelas orquestras cada vez mais raras hoje em dia. Eu fechei meus olhos, jurando para mim mesmo que estava ficando louco.

Louco.

Como podemos definir o que é a loucura? Um homem apaixonado é taxado de louco. Uma mulher que deseja ser professora pode ser rotulada de louca por muitos. Louco seria o que a sociedade vê como fora dos padrões de comportamentos? E quem dita essa padronização supostamente correta? Porque o correto é correto? E se o correto fosse incorreto?

Mas talvez eu estivesse mesmo louco.

— Você não deveria estar aqui. – repetiu, dessa vez mais autoritária.

— Eu não deveria ter feito muitas coisas…

— Arrependimento… Essa é nova.

Eu me virei. A cólera exalando dos meus poros.

Seus longos cabelos negros voavam com o vento gélido, emoldurando seu rosto delicado. A neblina da noite começava a adensar, e sua pele cor de porcelana facilmente se misturava nela. Seus olhos verdes não mostravam expressão alguma, apesar de seus delicados lábios rosados se crisparem num sorriso zombeteiro. Seu longo vestido branco meneava no vento frio.

— Porque não descemos dessa ponte e conversamos?

— Quem é você? Mais uma ilusão da minha mente? Eu sabia que estava ficando louco…

— Mais uma? Então você já teve ilusões antes?

— Isso está implícito, não é? – perguntei.

— Você é muito mal educado.

Por alguns instantes eu não soube o que fazer. Ela sentou-se do meu lado e segurou minha mão. Sua pele branca era quente, apesar do vento frio.

Nota

2. A ponte

Cap2

 

Naquela noite eu havia decidido dar um fim naquele sofrimento. Eu não era religioso ou qualquer coisa desse tipo, então não temia as maldições eternas.

Naquela hora, o vento cortante do inverno adormecia qualquer pele exposta. Mas eu, ali, sentado no alto da ponte olhava para o oceano congelante à minha frente. Eu estava crente que não doeria nada. Estava crente que ninguém sentiria minha falta. Não havia ninguém na minha vida.

Meus pais há muito se foram num acidente de trem junto com mais de 250 pessoas.

E Erick. Erick com certeza ficaria triste. Mas só. Ele talvez derramasse uma ou duas lágrimas quando encontrassem o meu corpo sem vida pela manhã, ou em uma das manhãs que se seguissem.

A luz da lua avançava por entre as nuvens densas e chegava até mim. Seu brilho perolado me lembrava justamente das pérolas que a minha mãe usava pela última vez que a vi. Meus pais iriam buscar minha avó na casa dela. E na ida, o trem sofreu um acidente, descarrilando.

Pessoas morrem.

Todos morrem.

Eu já estava morto.

2. A ponte

1. Com é dormir

Cap1

As noites sempre foram intermináveis para mim.

Era comum ficar horas encarando o teto do quarto, imóvel na cama, flutuando num mundo sem sonhos e sem descanso, suspenso nessa rede entre a vida e a morte. Tudo o que eu tinha e via era a escuridão. Tudo o que me tocava era a escuridão. E quando eu acordava desse transe eu me sentia incompleto.

As pessoas não me entendiam. Diziam que eu vivia num mundo niilista criado por mim para mim, onde não havia nada. Onde cada um dos habitantes havia deixado de existir.

Exceto eu.

Talvez – talvez – eles estivessem certos.

1. Com é dormir

Apartamento 96

Atenção. Esse texto contem cenas e palavras não recomendadas para menores de dezoito anos e/ou sensíveis e/ou frígidas. Leia por sua conta e risco. Não estou te obrigando a nada. (2bjs stay strong)

Ele entrou no elevador logo depois de mim.

Estávamos a sós. Escorado na parede do elevador, o observei pelo canto do olho: Não deveria ter mais do que quarenta e cinco anos. Tinha os ombros largos e grandes. O peitoral estava marcado por baixo da camisa branca. Vestia um short de ginástica e tênis de corrida. A pele branca estava avermelhada do sol. Carregava uma garrafa térmica numa mão e o celular na outra. Seu rosto era quadrado e bem definido. De onde estava não consegui decifrar a cor de seus olhos, porém minha atenção estava entre suas pernas. Apesar de flácido, eu podia ver o contorno de seu pênis pelo tecido fino do short.

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Apartamento 96