4. Junto com a chuva

cap4

— Por que você está aqui?

— Não sei. – simplesmente saiu de minha boca antes que eu pudesse pensar. Eu podia sentir seus olhos me examinando. Eu não era especial. Meus olhos e cabelos eram negros. Minha pele era morena e eu não era alto. Pelo contrário. Eu não chamava atenção. Porque ela estaria com tanto interesse em mim?

Eu deveria levar em consideração o meu estado de embriaguez. Depois da primeira hora no bar da esquina de casa com Erick, o álcool já tinha começado a agir no meu metabolismo.

É isso!

Ela era só mais uma alucinação causada pela tequila.

— Qual o seu nome?

— Tom.

— Meu nome é Kaya. Eu vou te ajudar a sair dessa.

Dá para parar de falar como se eu precisasse ser salvo, porra?

Eu não falei isso, mas estava entalado na garganta. Se fosse para ter uma alucinação porque não uma decente? Meu subconsciente sabe que eu adoro mulheres altas. Preferencialmente ruivas. Se fosse muda melhor ainda!

O mar lá em baixo estava negro feito petróleo. A lua estava completamente encoberta e as nuvens se adensaram. Uma tempestade viria logo.

— Por que você está aqui? – ela repetiu.

Eu não respondi. A resposta ainda era a mesma. Eu iria acabar com aquilo logo ou não?

— Por quê?

— Eu decidi acabar com tudo.

— Tudo o que?

— Para uma alucinação você fala demais.

Kaya riu. Sua risada parecia a de uma criança. O som doce e delicado, fascinante. Ao mesmo tempo, uma trovoada enche meus ouvidos.

Me inclinei para a frente e observei o meu fim.

Kaya segurou o meu braço. Seus dedos eram delicados, porém firmes.

— Não faça isso.

Junto com a primeira gota de chuva, eu caí.

Anúncios
4. Junto com a chuva

3. A dama de branco

Imagem

— Você não deveria estar aqui.

Aquela voz. Parecia uma daquelas orquestras cada vez mais raras hoje em dia. Eu fechei meus olhos, jurando para mim mesmo que estava ficando louco.

Louco.

Como podemos definir o que é a loucura? Um homem apaixonado é taxado de louco. Uma mulher que deseja ser professora pode ser rotulada de louca por muitos. Louco seria o que a sociedade vê como fora dos padrões de comportamentos? E quem dita essa padronização supostamente correta? Porque o correto é correto? E se o correto fosse incorreto?

Mas talvez eu estivesse mesmo louco.

— Você não deveria estar aqui. – repetiu, dessa vez mais autoritária.

— Eu não deveria ter feito muitas coisas…

— Arrependimento… Essa é nova.

Eu me virei. A cólera exalando dos meus poros.

Seus longos cabelos negros voavam com o vento gélido, emoldurando seu rosto delicado. A neblina da noite começava a adensar, e sua pele cor de porcelana facilmente se misturava nela. Seus olhos verdes não mostravam expressão alguma, apesar de seus delicados lábios rosados se crisparem num sorriso zombeteiro. Seu longo vestido branco meneava no vento frio.

— Porque não descemos dessa ponte e conversamos?

— Quem é você? Mais uma ilusão da minha mente? Eu sabia que estava ficando louco…

— Mais uma? Então você já teve ilusões antes?

— Isso está implícito, não é? – perguntei.

— Você é muito mal educado.

Por alguns instantes eu não soube o que fazer. Ela sentou-se do meu lado e segurou minha mão. Sua pele branca era quente, apesar do vento frio.

Nota

2. A ponte

Cap2

 

Naquela noite eu havia decidido dar um fim naquele sofrimento. Eu não era religioso ou qualquer coisa desse tipo, então não temia as maldições eternas.

Naquela hora, o vento cortante do inverno adormecia qualquer pele exposta. Mas eu, ali, sentado no alto da ponte olhava para o oceano congelante à minha frente. Eu estava crente que não doeria nada. Estava crente que ninguém sentiria minha falta. Não havia ninguém na minha vida.

Meus pais há muito se foram num acidente de trem junto com mais de 250 pessoas.

E Erick. Erick com certeza ficaria triste. Mas só. Ele talvez derramasse uma ou duas lágrimas quando encontrassem o meu corpo sem vida pela manhã, ou em uma das manhãs que se seguissem.

A luz da lua avançava por entre as nuvens densas e chegava até mim. Seu brilho perolado me lembrava justamente das pérolas que a minha mãe usava pela última vez que a vi. Meus pais iriam buscar minha avó na casa dela. E na ida, o trem sofreu um acidente, descarrilando.

Pessoas morrem.

Todos morrem.

Eu já estava morto.

2. A ponte

1. Com é dormir

Cap1

As noites sempre foram intermináveis para mim.

Era comum ficar horas encarando o teto do quarto, imóvel na cama, flutuando num mundo sem sonhos e sem descanso, suspenso nessa rede entre a vida e a morte. Tudo o que eu tinha e via era a escuridão. Tudo o que me tocava era a escuridão. E quando eu acordava desse transe eu me sentia incompleto.

As pessoas não me entendiam. Diziam que eu vivia num mundo niilista criado por mim para mim, onde não havia nada. Onde cada um dos habitantes havia deixado de existir.

Exceto eu.

Talvez – talvez – eles estivessem certos.

1. Com é dormir